Em entrevista ao Estadão, professor da Unicamp e membro do conselho consultivo do QS Global Rankings aponta falhas na internacionalização, mas relativiza outros indicadores. Para ele, apesar do cenário de queda, afirmar que isso se deve a uma piora do desempenho das universidades brasileiras é prematuro.
Quase dois terços das universidades brasileiras classificadas no ranking global QS World 2027, divulgado na noite desta quarta-feira, 17, caíram de posição, e nenhuma subiu. A lista, que está em sua 23.ª edição, avalia critérios como citações acadêmicas, empregabilidade e internacionalização para ranquear mais de 1.500 instituições de ensino superior em todo o mundo.
Apesar do cenário de queda, afirmar que isso se deve a uma piora do desempenho das universidades brasileiras é prematuro, segundo o professor do Instituto de Física Gleb Wataghin da Unicamp e membro do conselho consultivo da QS Global Rankings, Leandro Tessler.
A análise corrobora a afirmação do vice-presidente sênior da QS, Ben Sowter, para quem a queda das instituições brasileiras reflete principalmente o aumento da competitividade no cenário global, com universidades da Ásia, em particular da China, despontando como novos polos acadêmicos.
Ao Estadão, Tessler relativiza alguns dos indicadores considerados por rankings internacionais desse tipo e põe em perspectiva a finalidade das classificações. Admite, no entanto, desafios para o sistema de ensino superior brasileiro sinalizados pelas classificações, como a dificuldade de atrair mais professores e estudantes estrangeiros.
Como você avalia a queda generalizada das universidades brasileiras no QS World 2027?
O ranking tem muita oscilação pela maneira como mede (os indicadores). No ano passado, várias universidades brasileiras subiram bastante. Neste ano, os scores mudaram, mas muito pouco. Provavelmente, o que está acontecendo é aparecerem universidades de outros países que estão performando melhor nos indicadores do ranking.
Isso dito, tem vários indicadores que são bastante ruins para a realidade brasileira pela maneira como funcionam, posso falar deles com alguma autoridade porque faço parte do Comitê Externo de Avaliação. Por exemplo, o que eles chamam de employment outcomes (resultados de empregabilidade) que é uma coisa meio mal definida e os números para as universidades brasileiras flutuam malucamente. A UFSCar, que é uma universidade super importante, tem nota três em 100. Alguma coisa está errada.
A mesma coisa para a reputação entre os empregadores. Várias universidades federais que certamente são bem decentes em reputação aparecem com nota muito baixa. A Federal de Pernambuco por exemplo tem 4 em 100, a Federal de Santa Maria no Rio Grande do Sul tem 2 em 100 na nota, a Federal de Minas Gerais 12 em 100.
Parece bem claro que foi perguntado para empregadores em São Paulo, provavelmente. Então, a USP fica com uma nota bastante alta, está com 71. E a segunda que é a Unicamp tem 40. Se você perguntar (aos empregadores) aqui em Campinas qual é a universidade que forma melhor, a Unicamp vai ficar em primeiro e a PUC Campinas em segundo. O que isso está medindo? Praticamente nada, mas entra na nota final.
Esses indicadores são novos? Por que tantas universidades brasileiras caíram neste ano?
Isso já era medido assim ao longo dos anos, não é que mudou alguma coisa do ano passado para cá. Mas, se você usa um indicador que não avalia o que você acha que ele está avaliando, não ajuda em nada para criar um ranking que represente a realidade das universidades.
Os indicadores de internacionalização eram ruins e continuam ruins. As universidades brasileiras têm muito poucos docentes e estudantes estrangeiros. É crônico. Não sei se é um problema, mas é uma característica crônica do sistema universitário brasileiro. Ele é fechado em si mesmo.
O Brasil não é um país para docentes de outros países, com uma ou outra exceção. A Unicamp sai bem no indicador international faculty porque algumas unidades são muito internacionalizadas. O Instituto de Matemática, por exemplo, tem muitos docentes estrangeiros. Não é o caso da maioria das universidades federais, que só tem docentes brasileiros e muitas vezes formados na própria universidade. Isso é um grave problema, que o Brasil não sabe muito bem como atacar.
Essa queda das brasileiras, essencialmente, reflete um esforço de internacionalização muito consistente das universidades asiáticas.
Quais estratégias de internacionalização têm sido adotadas aqui?
As universidades brasileiras tomam dois caminhos que são ruins. Primeiro, as iniciativas são muito desconexas. Não é oferecer uma disciplina em inglês que vai atrair estudantes estrangeiros. Várias universidades aqui na América do Sul oferecem cursos inteiros. O tabu do inglês, infelizmente, continua forte nas universidades brasileiras. A gente acha que não deve ter, por uma mistura de um nacionalismo, que eu considero meio infantil, “aqui é Brasil, falamos português”. Mas o mundo acadêmico fala inglês, não tem saída. E há uma falta de uma política, com poucas exceções. A PUC do Rio usa muito bem o Rio de Janeiro e atrai muitos estudantes estrangeiros, acaba pontuando bem. Iniciativas que dão certo são recompensadas em pontuação. Em geral não é que as universidades não tenham iniciativas, mas que as iniciativas são mal colocadas, não resolvem o problema.
É possível resolver com iniciativas localizadas, ou seria o caso de uma política mais ampla e centralizada, como foi, por exemplo, o programa federal Ciência Sem Fronteiras?
Eu acho que o Ciência Sem Fronteiras não fez nem cosquinha na internacionalização das universidades brasileiras. Passados esses anos, o que sobrou? Praticamente nada. Eu acho que uma iniciativa de internacionalização tem que ser muito bem pensada e muito ousada. A gente precisa atrair professores estrangeiros para cá, dando facilidades, salários competitivos e possibilidades deles terem uma carreira, especialmente professores jovens, ter uma carreira que seja interessante para eles ficarem.
O que falta no Brasil é um programa de pós-graduação completamente em inglês em uma área competitiva, por exemplo. Outra coisa é que, aqui no Brasil, sempre se tenta aplicar as soluções em todas as universidades. Seria interessante se algumas universidades começassem a investir fortemente, investir mesmo em internacionalização, oferecer uma pós-graduação inteira em inglês.
E fazer acordos para que os estudantes circulem. A gente tem uma reputação bastante boa em pesquisa. Não todas, mas muitas universidades brasileiras têm, e isso pode servir para atrair estudantes. Em geral, eles acabam esbarrando na língua, e não só. Toda a maneira como a coisa funciona aqui é muito complicada para um estrangeiro entender. E o ingresso é feito só para brasileiros, a prova é em português.
Agora, também tem outra coisa. Para as universidades estrangeiras, atrair estudantes estrangeiros é uma fonte importante de recursos. Aqui no Brasil, não. Se eu tenho um estudante brasileiro ou estrangeiro, não muda em nada o orçamento da universidade. Ela não é recompensada de nenhuma forma. Não existe estímulo para a gente internacionalizar mais.
Poderia existir, talvez, uma bonificação? Algum tipo de incentivo?
Poderia. De alguma forma, receber um orçamento diferenciado em relação ao sucesso na internacionalização. E aí tem o problema político, que eu mencionei também. De os programas poderem ser em inglês, todo o apoio acadêmico, secretarias, essas coisas poderem funcionar em inglês.
Você mencionou a boa reputação das melhores universidades brasileiras em pesquisa. Mas o ranking mostra que a competitividade do Brasil nessa área também é pressionada à medida que outras universidades aumentam sua visibilidade e impacto, redes de colaboração e citações.
Eu acho que as universidades brasileiras publicam bem e têm boas relações internacionais. O que falta nas universidades brasileiras, uma coisa que estamos prestando atenção agora, é relevância na pesquisa: (o número) de citações e publicar nas revistas mais importantes do mundo, nas “top”. Isso é uma coisa que ainda o Brasil não está fazendo bem. E isso também tem consequências. Na medida que se tem alguém publicando em uma revista de primeiríssimo nível, também atrai colaboração com estrangeiros. E isso nós temos muito pouco.
Em um artigo para o site The Conversation, você ataca a ‘ilusão de objetividade’ do Center for World University Rankings (CWUR 2026), um ranking semelhante feito por uma consultoria privada sediada nos Emirados Árabes Unidos, no qual universidades brasileiras também caíram. Você aponta que os critérios parecem objetivos, mas a maioria está sujeita a flutuações anuais independentemente de qualquer mudança real. Qual a relação entre esses rankings?
No QS, algumas subiram 30 posições, 40 posições no ano passado. A Unesp subiu 39, a PUC do Rio subiu 40. E agora esse ano estamos baixando de novo. Mas isso é porque, de novo, os indicadores desse ranking são muito bem adaptados para universidades do Norte Global. Naquele CWR, dos Emirados Árabes. Isso é muito mais grave, porque só mede coisas muito de ponta. Então, aparece um ruído muito grande para as instituições de países como o Brasil. Tem que olhar com muito cuidado. Ranking não pode ser usado para pautar a educação superior, porque os objetivos dos rankings não são, nem devem ser, os objetivos de um programa de ensino superior de um país.
Então, qual é a utilidade, exatamente? Para que serve?
Serve para dar um grande panorama daquilo ele mede. Não é o caso do QS, mas alguns deles são muito intensivos em pesquisa e mostram um pouco como as universidades de ponta brasileiras estão aparecendo. E pode dar indicações em questões de internacionalização. Agora, esse é o objetivo das universidades brasileiras? Talvez não.
Eu gostaria muito que as universidades brasileiras tivessem muito mais relevância internacional, por causa do soft power disso, da soft diplomacy. Traz poder para o país ter universidades de renome, de prestígio. Agora, quanto isso muda a nossa vida? Não sei.
Então a queda no ranking não deve ser encarada como perda de qualidade, um declínio geral das nossas instituições de ensino superior?
Não, de jeito nenhum, não. Elas estão perdendo a competitividade global, elas estão menos internacionalizadas do que as universidades asiáticas, mas isso não é novidade nenhuma. Só quem como as universidades asiáticas estão com iniciativas muito agressivas de internacionalização, as brasileiras estão paradas e caem. Agora, não dá para dizer que houve corte de orçamento, que nós educamos mal, que nós não conseguimos fazer pesquisa, nada disso pode ser concluído a partir do ranking. Tanto é que a posição das universidades brasileiras variou muito pouco internamente. Entre as universidades brasileiras, as posições não variaram muito. E claro, tem essas anomalias dos indicadores de emprego.
Via:Estadão
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