Mulheres negras triplicam no ensino superior, mas enfrentam

Avanço histórico no número de formandas contrasta com a baixa representatividade nas chamadas

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O acesso das mulheres negras ao ensino superior brasileiro passou por uma transformação expressiva no período recente. Entre 2010 e 2022, o contingente de mulheres negras com diploma universitário quase triplicou no país, saltando de 1,9 milhão para 5,7 milhões. Apesar dessa conquista histórica, os marcadores sociais de raça e gênero continuam a ditar os caminhos no mercado de trabalho e a impor limites para o ingresso e a consolidação nessas carreiras.

Os dados fazem parte do estudo Da Marcha ao Bem Viver: Uma década de avanços, desafios e disputas pelos Direitos das Mulheres Negras no Brasil, produzido pela Gênero e Número, Oxfam Brasil e Observatório da Branquitude, em parceria com a Marcha das Mulheres Negras. A análise cruzou dados de duas edições do Censo da Educação Superior para mapear a evolução desse grupo populacional nas universidades.

A barreira das "profissões imperiais" e a concentração no cuidado

Historicamente associadas ao prestígio social, à renda elevada e à manutenção do status quo, as chamadas "profissões imperiais" — Medicina, Direito e Engenharia — permanecem sob forte hegemonia branca e masculina, embora tenham registrado pequenos avanços na diversidade racial. No Direito, a proporção de mulheres negras subiu de 8% para 15% entre 2010 e 2022. Na Medicina, o percentual passou de 7% para 11%, enquanto na Engenharia Civil a presença desse grupo avançou de 4% para 9%.

Em contrapartida, os dados revelam que a expansão de mulheres negras ocorre de forma muito mais acelerada nos cursos voltados à educação e ao cuidado, áreas tradicionalmente desvalorizadas financeiramente no mercado de trabalho. No mesmo período de análise, as mulheres negras saltaram de 32% para 40% na Formação de Professores, de 29% para 42% na Enfermagem e de 25% para 31% no curso de Letras. Especialistas apontam que fatores culturais e socioeconômicos continuam atribuindo papeis de cuidado a esse perfil demográfico, o que reflete diretamente na distribuição e ocupação das vagas universitárias.

Cotas nas universidades e a barreira na permanência

O estudo reforça que o mecanismo das cotas raciais e sociais, consolidado pela Lei 12.711/2012 e atualizado pela Lei 14.723/2023, foi o principal motor para a entrada de estudantes negros no ensino público superior. No entanto, o ingresso soluciona apenas a primeira etapa do problema. Na Medicina, por exemplo, dados da Demografia Médica mostram que a diversidade racial está fortemente concentrada nas universidades públicas, enquanto nas instituições privadas, que detêm ampla fatia de vagas de graduação no país, a oferta de ações afirmativas ainda é bastante incipiente.

Além disso, após o término da graduação, surgem novas barreiras de permanência e progressão profissional. Os custos financeiros de cursos preparatórios e a necessidade imediata de ingressar no mercado de trabalho para garantir o sustento da família impedem que muitos recém-formados dediquem tempo aos estudos para provas de residência médica ou seleções de pós-graduação. Outro entrave relevante é a inexistência de uma política nacional unificada para a assistência estudantil, o que faz com que a concessão de auxílios moradia, transporte e alimentação dependa da autonomia e do orçamento individual de cada universidade.

Disparidade salarial e concentração do poder no mercado

Mesmo nas áreas em que a presença de mulheres e pessoas negras cresceu quantitativamente, a desigualdade se reconfigura no campo profissional. No Direito, levantamentos demográficos do setor apontam paridade de gênero no total de inscritos, mas revelam grande abismo racial e financeiro.

Os advogados pretos e as mulheres constituem a maioria nas faixas de menor remuneração, que recebem até dois salários mínimos. Na outra ponta, a cúpula dos grandes escritórios de advocacia e as faixas salariais mais altas, acima de 20 salários mínimos, permanecem ocupadas majoritariamente por homens brancos. Para os pesquisadores envolvidos no levantamento, os dados reforçam que as políticas públicas não podem se limitar ao acesso à universidade, sendo necessário estruturar mecanismos contínuos de assistência estudantil, estímulo à pós-graduação e combate à discriminação no mercado corporativo e nas instituições públicas.

Via: Gênero e Número
Foto: Reprodução/Freepik