Carta manifesta preocupação acerca do debate das eleições presidenciais e é assinada por dez professores, desde Jorge Bounassar Filho (1986/1990) à professora Marta Gimenez Favaro (2022/2026).
"Defender as universidades públicas gratuitas e investir continuamente na produção do conhecimento significa não apenas valorizar a educação, a cultura e a ciência, mas também reconhecer que não há desenvolvimento sustentável, democracia sólida ou verdadeira soberania nacional sem capacidade científica e tecnológica própria." Desta forma, 10 ex-reitoras e ex-reitores da Universidade Estadual de Londrina (UEL) assinam uma carta em que manifestam preocupação com o futuro do país, a partir do resultado das eleições do segundo turno, no próximo domingo. Assinam o documento Jorge Bounassar Filho, João Carlos Thomson, Pedro Alejandro Gordan, Lygia Lumina Pupatto, Eduardo Di Mauro, César Antonio Caggiano dos Santos, Nádina Aparecida Moreno, Berenice Quinzani Jordão, Sérgio Carlos de Carvalho e Marta Gimenez Favaro.
O documento afirma que, embora, as propostas de Flavio Bolsonaro abordam a aproximação entre universidades e empresas, é preciso esclarecer como seriam garantidos o financiamento da pesquisa básica, a autonomia universitária e a valorização dos pesquisadores. Para as 10 professoras e professores que chegaram à Reitoria da UEL o debate sobre os programas eleitorais exige responsabilidade. “Por essas razões, entendemos que o debate presidencial precisa contemplar, de maneira clara e responsável, propostas para o financiamento das universidades públicas, a formação de pesquisadores, a valorização dos profissionais da educação e o fortalecimento do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação”, subscrevem as ex-reitoras e ex-reitores.
Leia o texto na íntegra:
A importância das universidades públicas, da ciência e da tecnologia para a soberania nacional
As universidades públicas brasileiras desempenham papel fundamental no desenvolvimento científico, tecnológico, econômico, social e cultural do país. Orientadas pelos princípios da autonomia universitária, da liberdade acadêmica e do pluralismo de ideias, essas instituições têm como característica essencial a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. Assumem, ainda, o compromisso de formar profissionais qualificados e cidadãos conscientes de suas responsabilidades sociais.
Mais do que instituições de ensino, as universidades públicas são espaços privilegiados de produção e democratização do conhecimento. Sua contribuição vai além da formação profissional e abrange a pesquisa básica, o desenvolvimento tecnológico, a inovação e a construção de uma sociedade mais justa e democrática. São, portanto, instituições estratégicas para a soberania nacional, que depende cada vez mais da capacidade de produzir conhecimento e desenvolver tecnologias próprias.
Diante do atual cenário político brasileiro, marcado pela disputa entre diferentes projetos de país, nós, reitoras e reitores que tivemos a experiência de administrar a Universidade Estadual de Londrina (UEL), consideramos fundamental refletir sobre o futuro das universidades públicas e sobre o papel da cultura, da ciência, da tecnologia e da inovação no Brasil.
O governo Lula tem adotado medidas voltadas ao fortalecimento da pesquisa científica e tecnológica. Entre elas, destacam-se a ampliação dos recursos destinados ao financiamento de projetos e o reajuste, em 2023, de 40% nos valores das bolsas de mestrado e doutorado da CAPES e do CNPq, que permaneciam congelados desde 2013. Também foram ampliados investimentos e lançados editais voltados ao desenvolvimento tecnológico e à inovação, com atenção especial a áreas estratégicas, como minerais críticos e terras raras, relevantes para a transição energética e a soberania tecnológica.
Por outro lado, a possibilidade de um eventual governo de Flávio Bolsonaro exige uma análise cuidadosa. Embora suas propostas enfatizem a aproximação entre universidades e empresas e a aplicação produtiva do conhecimento, é necessário esclarecer de que maneira seriam garantidos o financiamento da pesquisa básica, a autonomia universitária e a valorização dos pesquisadores.
Essa preocupação também se relaciona ao histórico do governo Jair Bolsonaro, período marcado por restrições orçamentárias à ciência e às universidades federais, pela ausência de reajustes gerais dos vencimentos básicos dos docentes federais e pela manutenção, durante os quatro anos de mandato, dos valores das bolsas de mestrado e doutorado da CAPES e do CNPq. Não é possível afirmar que um eventual governo de Flávio Bolsonaro reproduziria necessariamente essas políticas; ainda assim, esse histórico constitui uma referência relevante para o debate.
A ciência não pode ser avaliada exclusivamente por seus resultados econômicos imediatos. A pesquisa básica, mesmo quando não apresenta aplicações previsíveis no curto prazo, está na origem de inúmeras descobertas e transformações tecnológicas. Da mesma forma, a autonomia universitária e a liberdade de investigação são condições indispensáveis à produção de conhecimento confiável e ao desenvolvimento de uma sociedade democrática.
Nossa experiência na gestão universitária reforça a importância do diálogo permanente entre as instituições de ensino superior, a comunidade científica e os responsáveis pela formulação e implementação das políticas públicas. A valorização da educação, da ciência, da tecnologia, da inovação e da cultura deve constituir um compromisso de Estado, independentemente das circunstâncias eleitorais.
Por essas razões, entendemos que o debate presidencial precisa contemplar, de maneira clara e responsável, propostas para o financiamento das universidades públicas, a formação de pesquisadores, a valorização dos profissionais da educação e o fortalecimento do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação.
Defender as universidades públicas gratuitas e investir continuamente na produção do conhecimento significa não apenas valorizar a educação, a cultura e a ciência, mas também reconhecer que não há desenvolvimento sustentável, democracia sólida ou verdadeira soberania nacional sem capacidade científica e tecnológica própria. O futuro do Brasil depende, em grande medida, das escolhas que fizermos hoje nessas áreas.
Assinam
Jorge Bounassar Filho
1986 – 1990
João Carlos Thomson
1990 – 1994
Pedro Alejandro Gordan
2001 – 2002
Lygia Lumina Pupatto
2002 – 2006
Eduardo Di Mauro
04/2006 – 06/2006
César Antonio Caggiano dos Santos
04/2010 – 06/2010
Nádina Aparecida Moreno
2010-2014
Berenice Quinzani Jordão
2014-2018
Sérgio Carlos de Carvalho
2018-2022
Marta R. Gimenez Favaro
2022-2026